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Ex-presidente do Peru se suicida após receber ordem de prisão no caso Odebrecht


García, que tentou pedir asilo ao Uruguai, chega à Promotoria para depor em novembro de 2018 Foto: ERNESTO BENAVIDES / AFP

O ex-presidente do Peru ,Alan García , morreu cerca de três horas depois de ter atirado contra a própria cabeça diante de uma ordem de prisão preventiva por dez dias emitida pela Justiça. García, de 69 anos, foi antes levado para o hospital Casimiro Ulloa. Ele era um dos dos quatro ex-chefes de Estado do Peru investigados sob a acusação de terem recebido suborno da construtora brasileira Odebrecht, e negava a acusação de corrupção. 

— Nesta manhã ocorreu este lamentável acidente: o presidente tomou a decisão de atirar em si mesmo — disse a jornalistas o advogado de García, Erasmo Reyna, na porta do Hospital de Emergências Casimiro Ulloa, em Lima.

O secretário pessoal de García, Ricardo Pinedo, confirmou que o ex-presidente entrou em seu quarto depois de ser informado que um promotor batia à porta de sua casa levando a ordem de prisão. Segundo Reyna, ele foi submetido a uma operação antes de morrer.

Orador habilidoso que liderou por décadas um partido tradicional do Peru, o Apra (Aliança Popular Revolucionária Americana), García governou o país como um nacionalista de 1985 a 1990 antes de se reinventar como um defensor do livre mercado e ganhar um novo mandato de cinco anos em 2006. No ano passado, ele pediu asilo político no Uruguai depois de uma ordem judicial que o proibiu de sair do Peru, para evitar que fugisse ou interferisse nas investigações do caso Odebrecht. Montevidéu não aderiu à tese de perseguição política e rejeitou a solicitação.

O caso contra ele faz parte da chamada Lava-Jato peruana e avançou após a  delação premiada  do advogado brasileiro José Américo Spinola, que afirmou no Brasil ter pago US$ 100 mil a García a pedido da Odebrecht . García afirma que recebeu o dinheiro como pagamento de uma palestra feita na Fiesp, em São Paulo, sem nenhuma relação com corrupção.

— Se estou impedido de sair do país já é uma forma de prisão. Já não posso ir a nenhuma conferência, não possa assistir a nenhuma reunião. Estou, de alguma maneira, atado — disse recentemente García.

Minutos depois da morte, o presidente do Peru, Martín Vizcarra, se disse “consternado” em mensagem  em uma rede social: “Envio minhas condolências a sua famíilia e seus entes queridos”.

O caso Odebrecht no Peru

Além de García, a investigação sobre subornos da Odebrecht no Peru envolve também os ex-presidentes Alejandro Toledo (2001-2006), Ollanta Humala (2011-2016) e Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018). Todos estão sob investigação do Ministério Público peruano.

Kuczynski, de 80 anos, foi preso preventivamente por dez dias no início deste mês e nesta quarta-feira foi hospitalizado  após sofrer uma crise de hipertensão arterial.  Toledo, que supostamente recebeu US$ 20 milhões da empreiteira pela construção de uma rodovia, vive nos Estados Unidos.

O escândalo também atingiu as ex-candidatas Lourdes Flores e Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), em prisão preventiva desde 31 de outubro.

Alberto Fujimori (1990-2000)


Foto: Greg Baker / AP

Foi condenado a 25 anos de prisão por múltiplas violações dos direitos humanos e casos de corrupção. Tem 79 anos, e após ficar anos preso na base policial da Direção de Operações Especiais do Peru, recebeu do presidente Pedro Pablo Kuczynski o indulto, que acabou anulado em 2017.

Alejandro Toledo (2001-2006)


Foto: Dolores Ochoa / AP

Está foragido da Justiça peruana, que já pediu sua extradição aos Estados Unidos. Foi acusado de receber suborno de US$ 20 milhões da empresa Odebrecht, entre 2006 e 2008. Toledo nega as acusações de lavagem de dinheiro.

Alan García (1985-1990 e 2006-2011)


Foto: Marcos Alves / Agência O Globo

Depois de concluir o seu primeiro mandato, foi investigado pelo Congresso peruano por lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito. Os crimes prescreveram. Atirou contra a própria cabeça ao saber de ordem de detenção no caso Odebrecht.

Ollanta Humala (2011-2016)


Foto: Mariana Bazo / Reuters

O ex-presidente também é suspeito de envolvimento com a Odebrecht. Ele recebeu uma ordem de prisão preventiva de 18 meses ao ser acusado, junto com a mulher, de lavagem de dinheiro e associação criminosa.

Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018)


Foto: MARIANA BAZO / REUTERS

Eleito em 2016 com a força do voto antifujimorista, o presidente renunciou menos de dois anos depois sob pressão dos partidários de Fujimori no Congresso. Acusado de receber quantias milionárias da Odebrecht por consultorias, ficou à beira do impeachment. As investigações presseguiram a partir da renúncia.

A ordem judicial de detenção desta quarta-feira também afeta outras oito pessoas: o ex-ministro de Transportes Enrique Cornejo, Luis Nava, seu filho José Antonio Nava, Miguel Atala, seu filho Samir Atala, Oswaldo Plasencia Contreras, Jorge Menacho e Raúl Antonio Torres. Luis Nava, que foi ministro de García, teria recebido US$ 4 milhões da Odebrecht que, segundo os promotores peruanos, eram destinados ao ex-presidente.

Em fevereiro, a Odebrecht assinou um acordo de cooperação com a Procuradoria peruana em São Paulo para ampliar as investigações sobre pagamentos ilícitos no país andino.

Ficou então definido que a empresa teria que pagar cerca de US$ 182 milhões como compensação civil aos peruanos, com base em quatro licitações que venceu mediante o pagamento de subornos a autoridades locais. A empreiteira já admitira em 2016 que havia pagado propinas na casa dos US$ 29 milhões entre 2005 e 2014 no país.

O Peru é o oitavo país com o qual a Odebrecht firmou um acordo de colaboração. Negociações semelhantes ocorreram com o Brasil, os Estados Unidos, a Suíça, a República Dominicana, o Panamá, o Equador e a Guatemala.

Em dezembro, o presidente Martín Vizcarra,  rejeitou a possibilidade da continuação das operações da Odebrecht   no país, sob a alegação de que as práticas corruptas da empresa provocaram sérios estragos. Vizcarra assumiu a Presidência em 2018 depois da renúncia de Pedro Paulo Kuczynski, que sofria uma ameaça de impeachment. Apesar das críticas, Vizcarra afirmou que respeita o pacto dos promotores com a Odebrecht.

O Globo e agências internacionais

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