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Flagradas em liberdade, onças são termômetro sustentável no Pantanal


Um dos filhotes da fêmea de onça-pintada dá um close na câmera do projeto Conexão Jaguar (Foto: Divulgação/IHP) – CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS

“Liberdade caça jeito”, disse Manoel de Barros. Desde o final de 2019, onças-pintadas do Pantanal homenageiam o poeta de Mato Grosso do Sul. Caçam jeito de viver livres e foram flagradas em plena liberdade por projeto que uniu Colômbia e Brasil. Com isso, a espécie e outros animais ameaçados de extinção são o termômetro de sustentabilidade da Serra do Amolar. Pelas câmeras do projeto Conexão Jaguar, as onças indicam que o Pantanal pode ser a primeira área para crédito de carbono com biodiversidade do Brasil.

O projeto Conexão Jaguar começou a ser desenhado há um ano e une empresas e organizações da sociedade Civil. Fazem parte do projeto o grupo ISA, empresa colombiana de rede de transmissão de energia, a ONG colombiana Panthera, a consultoria de financiamento de carbono da Suíça South Pole e o IHP (Instituto do Homem Pantaneiro), que realiza o monitoramento da Rede de Proteção e Conservação da Serra do Amolar desde 2010.

Paraíso natural pantaneiro, a Serra do Amolar registrada em uma das reservas monitoradas pelo IHP (Foto: Haroldo Pablo Jr.)
De dezembro de 2019, quando as câmeras foram instaladas, até fevereiro de 2020, 48 câmeras na Serra do Amolar flagraram 49 espécies- 32 de mamíferos-  espalhados nas áreas monitoradas. E o mais importante: oito onças-pintadas e seis ariranhas, que são espécies ameaçadas de extinção. Tatus-canastra e antas também foram flagrados.

Um termômetro do que é saudável – A rotina dos animais capturados pelas câmeras do projeto, em especial das espécies em extinção, funciona como uma espécie de termômetro porque se as espécies ocupam a área em número considerável, podem indicar que as condições daquele ambiente estão saudáveis.

Além disso, as onças são animais de topo de cadeia, e se passeiam livres, inclusive com filhotes, é sinal de que outros animais, suas presas, também estão na área.

A mãe onça foi filmada em dezembro de 2019:

Inédito – Diretor de relações institucionais do IHP, Angelo Rabelo considera que o projeto é inédito e comemora os resultados. “Está sendo repercutido no mundo inteiro, é algo inédito você gerar crédito de carbono a partir de espécies ameaçadas. Além do fato de uma empresa privada ter esse olhar e pensar além dos seus muros, principalmente por ela já ter uma empresa no Brasil”, diz.

“No levantamento que fizeram em outros países, na própria Colômbia, não tem nenhum lugar que se compare, em número de espécies em condição saudável, igual aos que se encontraram aqui. Isso vai gerar uma possibilidade de estabilidade para o futuro, de vender esse crédito, gerar receita e garantir que se faça o trabalho de preservação. Então eu acho que a gente tem de fato um ineditismo”, comenta.

Ariranha, outra espécie ameaçada, também foi vista passendo durante o dia (Foto: Divulgação/IHP)
Bióloga e Doutora em ecologia e conservação, Letícia Larcher também faz parte do Conexão Jaguar representando o IHP e afirma que depois de um período em queda, a utilização do crédito de carbono para comprovar práticas sustentáveis tem voltado ao cenário mundial.

“Você tem uma empresa que não é sustentável e não tem responsabilidade ambiental, você pode comprar crédito para pagar sua dívida. O mercado funciona na base da credibilidade com o cliente. Se você tem uma indústria do papel, você está jogando muito carbono na atmosfera, a floresta tira o carbono da atmosfera”, comenta. “Nos projetos de certificação de crédito de carbono, tem uma empresa que vai avaliar o histórico da área, se está preservada, se as espécies não tem risco, e te dão o selo dizendo que pode ser crédito de carbono”, explica.

Para a especialista do IHP, a grande novidade do projeto é o selo com qualidade de biodiversidade. “Representa uma floresta que está incorporando o carbono e também protege toda uma cadeia de biodiversidade, isso é a primeira vez que acontece no Brasil. Apesar de termos muitas áreas que já comercializam [créditos de carbono] é a primeira vez que esse crédito de carbono é ligado com a biodiversidade”, destaca.

“É um incentivo para que venham fazer pesquisa, para que as pessoas também tenham interesse de que as próximas gerações também conheçam”, afirma a bióloga.

Onça parda, outra espécie que também foi registrada (Foto: Divulgação/IHP)
Conforme explica Letícia, no momento, os primeiros resultados já podem ser comemorados, mas ainda há muito trabalho pela frente. “Essencialmente, esses resultados estão nos dizendo que podemos seguir em frente. Isso nos fala sobre a densidade de onças [número por local ocupado], qual é o tamanho, se é macho, fêmea, e então começamos a conhecer mais a biodiversidade. Juntamos todos esses dados e percebemos que a possibilidade é maior do que a gente esperava. Por isso a gente já resolveu fazer o lançamento desses dados”, comenta.

Ainda assim, segundo a bióloga, o aumento dos focos de incêndio no Pantanal deve continuar acompanhado de perto e combatido, pois representa ameaça às espécies. A Serra do Amolar, ainda assim, conta com a proteção extra da rede formada também pelos proprietários das RPPNs e projetos de conservação.

“Esse ano estávamos há 20 dias com equipes direto combatendo fogo [nas RPPNs], mas nessa área quase não pegou fogo. Está pegando mais fogo na região do Parque Nacional, estamos em conjunto com ICMbio”, explica.

Onças, oncinhas e outros animais – Médico veterinário e estudante de mestrado do programa de sustentabilidade e agropecuária da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco), Diego Francis Passos Viana relata que o IHP segue com os registros – ainda que não sejam as câmeras do Conexão Jaguar – e os resultados continuam favoráveis.

As câmeras espalhadas em duas RPPNs  e uma fazenda (RPPN Penha, RPPN Eliezer Batista e Fazenda Serra Negra) flagraram 32 mamíferos e entre eles, quatro onças-pintadas (parte do grupo de oito onças vistas entre o final de 2019 e início de 2020 pelo Conexão Jaguar). O grupo é diverso: um macho e três fêmeas. Espécie solitária, esses animais foram flagrados em pontos diferentes.

Uma das fêmeas foi vista pelas câmeras monitoradas pelo Conexão Jaguar com dois filhotes e depois foi vista de novo pelas câmeras do IHP, ainda que as “oncinhas” não estivessem por perto.

Mãe onça e seu filhote na Serra do Amolar (Foto: Divulgação/IHP)
“Existem alguns casais que podem andar juntos, principalmente quando algum deles tem dificuldade para locomoção, mas são predominantemente solitários. Eles podem ocupar a mesma área, mas dificilmente ficam sempre juntos. Os filhotes ficam com as mães até dois anos de idade. Eles tinham um ano e meio, já eram grandes, e começam a andar na mesma região, mas começam a ficar um tanto independentes”, explica Diego.

O veterinário afirma que os resultados preliminares já foram submetidos para uma publicação científica e o objetivo é demonstrar “indícios” de que a vida das onças tem uma rotina de “mais liberdade” na Serra do Amolar.

“Esse estudo mostra como as onças usam as áreas, tanto onde tem produção de gado, quanto nessas áreas da Serra do Amolar. Na Serra elas andam o dia inteiro, mas onde tem pecuária a onça anda mais durante a noite. Isso indica que a área associada ao amolar impacta menos a movimentação das onças, elas não têm medo de sair durante o dia”, esclarece.

Por Izabela Sanchez – CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS

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